
Texto de Guilherme Fiuza, publicado em 10/03/04. Concordo em gênero, número e grau (risos).
Abaixo o Dia da MulherAxilas empapadas de suor, barba por fazer e as mãos gordas e peludas gesticulando em primeiro plano, Miro Teixeira acabara de descer de um morro no Rio de Janeiro, em campanha eleitoral, quando soltou a frase imortal: “A mulher, negra e favelada sou eu”. Tendo entre seus concorrentes a senadora Benedita da Silva, ele queria dizer que era a sua, na verdade, a candidatura popular. Mulher, àquela altura, já tinha virado adjetivo, ou advérbio de extratificação social. E é essa mulher abstrata, adverbial, que o mundo homenageia burocraticamente uma vez por ano.
O maior movimento feminino de massas que se podia realizar nos dias de hoje seria uma campanha pelo fim do Dia Internacional da Mulher. Uma comissão de damas notáveis da sociedade mundial – auto-selecionadas entre aquelas que nunca participam de comissões – divulgaria sua mensagem: Propomos que, doravante, 8 de março passe a ser o Dia do Mico-Leão Dourado. Ou o Dia da Empregada Doméstica. Ou o Dia do Aposentado.
Revogado enfim o Dia da Mulher, as mulheres iam ver o que é libertação de verdade. No ano seguinte, já não teriam que dar de cara com aquelas fotos de chefes de Estado cercados de secretárias e auxiliares administrativas constrangidas. No Brasil, por exemplo, não teriam que agüentar os sermões das Rosyskas, Martas, Jandiras e Heloneidas sobre o que ainda lhes falta dizer aos homens ou obter deles. Ao abrir os jornais e ligar a TV, as mulheres não iriam mais ter que engolir aquelas pautas obrigatórias, frias, repetitivas – que repórteres bem intencionados sempre acabam encerrando com alguma mensagem bondosa (“o que seria do mundo sem elas”, e por aí vai).
O mundo precisa se dar conta desse embaraço que é passar a mão na cabeça das mulheres uma vez por ano. Talvez seja preciso surgir uma nova Luz Del Fuego para dizer: “Podem passar a mão, mas vai ser onde e quando eu quiser.”
Millôr Fernandes sempre disse que nunca conheceu uma feminista bonita. Um exagero, certamente, pois há várias. Mas a alfinetada não está ao pé da letra. A pergunta é se o feminismo, depois de conquistas históricas, seria ainda essencialmente uma arma contra as frustrações femininas, ou teria virado um clube para abrigá-las. Possivelmente seja um pouco das duas coisas, mas não há lei impedindo que se despolua a causa de seus rancores, preconceitos invertidos e entulhos sexistas – como a tal data anual comemorativa.
Não há, hoje, melhor bandeira feminista do que uma Daniela Cicarelli de biquíni: sou linda, sensual, estou à venda (minha imagem, não meu corpo), e sou inteligente, não sou boba, tenho o que dizer. E não me escondo atrás dos meus seios e das minhas coxas.
Não pode haver maior machismo do que o Dia Internacional da Mulher. Não que se trate exatamente de um ardil masculino – às vezes, o feminismo é o que há de mais machista. Trata-se de homenagem com cheiro de consolo, de concessão (quem disse que as mulheres são oprimidas? Têm até um dia que é só delas...), espécie de bijuteria moral. Como pode meia Humanidade aceitar uma migalha dessas? Por muito menos (quantitativamente), Jorge Ben esculachou o famigerado 19 de Abril: “Antigamente todo dia era dia de índio”.
Se nem o mico-leão dourado quiser o 8 de março para ele, tanto melhor. A data será declarada para sempre vaga pela comissão das notáveis que não participam de comissões (nem de clubes de frustração), um ponto interditado do calendário, vedado a homenagens. Ficará conhecido como o Dia da Desideologização da Mulher, o dia em que o sexo feminino se libertou de seu carimbo classista. Miro Teixeira e outros peludos jamais se apresentarão novamente como verdadeiras mulheres (a não ser por opção sexual que sobrevenha aos seus interesses políticos).
E as mulheres poderão voltar a se preocupar apenas em ser mulheres – o que não é pouco. Que o digam as Marias Sílvias Bastos, Daianes dos Santos, Monicas Waldvogels, Zildas Arns, Lias Lufts, Ritas Lees... Aliás, se a média se aproximar desse padrão, a outra metade da Humanidade pode ir pensando em reivindicar o Dia Internacional do Homem.